“A virtude contém, em certo modo, a intelectualidade em potência, uma vez que, levando-nos ao nosso fim, que é intelectual, equivale ao supremo saber”. (p. 18)
“A verdade vem ao encontro dos que a amam, dos que lhe não resistem, e este amor pressupõe a virtude. Pelo que, a despeito de possíveis taras, o gênio, que no trabalho é já virtuoso, para ser santo só precisaria de ser mais plenamente o que é. A verdade medra na mesma terra que o bem; as raízes duma e doutro comunicam entre si. Desligados desta raiz comum e, por conseguinte, menos ligados à sua terra, ambos vêm a sofrer: ou a alma se torna anêmica ou o espírito se estiola. Pelo contrário, alimentando a verdade, ilumina-se a consciência; fomentando o bem, guia-se o saber”. (p. 19)
“Como querereis pensar bem com a alma doente, com o coração trabalhado pelos vícios, solicitado pelas paixões, desorientado por amores violentos ou culpados? Há um estado clarividente e um estado cego da alma, dizia Gratry, um estudo são e conseguintemente sensato, e um estado insensato. ‘O exercício das virtudes morais, afirma por sua vez S. Tomás de Aquino, das virtudes que refreiam as paixões, importa sobremaneira para a aquisição da ciência'”. (p. 20)
“A ‘psicologia dos sentimentos’ governa a prática, mas também, em grande parte, o pensamento. A ciência depende das orientações passionais e morais. Apaziguar-nos é desembaraçar em nós o senso do universal; retificar-nos, é desobstruir o senso da verdade. Continuai a analisar. Quais são os inimigos do saber? Evidentemente a ininteligência: e, por isso, o que dizemos dos vícios, das virtudes e dos seu papel na ciência, pressupõe sujeitos no restante iguais. Mas, à parte a loucura, que inimigos temeis? Não pensais na preguiça, sepulcro dos melhores dons? Na sensualidade, que enfraquece e prostra o corpo, enegrece a imaginação, embota a inteligência, dissipa a memória? No orgulho, que ora deslumbra ora entenebrece, que nos arrasta para o nosso próprio senso a ponto de nos fazer perder o senso universal? Na inveja que recusa obstinadamente uma claridade vizinha? Na irritação que rejeita as críticas e se apega ao erro?” (p. 21)