“Será isso possível? É, sim: a experiência e a psicologia o ensinam. O cérebro trabalha sem remissão; as turbinas, que reclamo, existem, giram, arrastando em suas voltas um sistema de rodas donde se escapam as ideias como as centelhas dum dínamo em pleno rendimento. Os processos nervosos encadeiam-se em série contínua e não param do mesmo modo que os movimentos do coração ou dos pulmões. Que falta para aproveitar, em favor da verdade, esta vida permanente? Só a disciplina. É preciso que os dínamos estejam ligados às turbinas, as turbinas às correntes de água, é preciso que o desejo de conhecer acione regularmente, e não por intermitências, o funcionamento cerebral, consciente ou inconsciente.
A maior parte da atividade nervosa de nada serve, pela simples razão de não ser captada. A falar a verdade, nunca o será totalmente, porque o nosso poder sobre ela é relativo, e, se tentarmos forçar o rendimento, arriscamo-nos a quebrar a máquina. Mas para obter o máximo, basta relativamente pouca dessa atividade, desde que saibamos cultivar o hábito. Este, bem montado, opera como segunda natureza. Têm aqui lugar os nossos conselhos práticos”. (p. 61)
“Aprendei a olhar; confrontai o que se vos oferece com as ideias que vos são familiares e secretas. Numa cidade não vejais somente casas, mas vida humana e história. Que um museu vos não mostre apenas quadros, mas escolas de arte e de vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento inspirador, dos sentimentos. Que uma oficina vos não fale apenas de ferro e de madeira, mas da condição humana, do trabalho, da economia antiga e moderna, das relações entre as classes. Que as viagens vos ensinem a conhecer a humanidade; que as paisagens evoquem a vossos olhos as grandes leis do mundo; que as estrelas vos falem das durações incomensuráveis; que as pedras do caminho sejam para vós o resíduo da formação da terra; que a visa duma família se associe em vós à das gerações, e que a menor frequentação vos informe sobre a alta concepção do homem. Se não souberdes olhar assim, tornar-vos-eis banal, se já o não sois. O pensador é filtro onde a passagem da verdade deixa o melhor da sua substância”. (p. 63-64)
“O pensador só é verdadeiramente pensador, se encontrar, no mais pequeno impulso de fora, a ocasião dum entusiasmo ardente. O seu caráter consiste em conservar, pela vida fora, a curiosidade da infância, a vivacidade de impressão, a tendência para ver tudo sob o ângulo do mistério, a feliz faculdade de encontrar em toda a parte surpresas fecundas”. (p. 64-65)
“Durante o sono, completa-se e encadeia-se o trabalho cerebral começado e a ideia encetada que um incidente interno ou externo impedira de desabrochar internamente: não percais esta ocasião de lucro; recolhei essa claridade que vos pode servir de ajuda, antes que ela torne a mergulhar na noite mental”. (p. 70)
“Cuidado, não basta o cuidado de colher. O sono, que trabalha sozinho, trabalha sobre matéria preexistente; não cria coisa alguma; hábil em combinar e em simplificar, em levar a termo, só opera sobre os dados da experiência e o labor diurno. Precisa, pois, de que lhe preparem a tarefa. Contar com ele é, antes de tudo, contar consigo”. (p. 72)
“Não façais esforço que retarde o sono, mas acalmai neste pensamento: o universo trabalha por mim; o determinismo é escravo da liberdade e, enquanto descanso, ele rodará a sua mó; posso adiar o esforço: os céus rolam e, rolando, movem no meu cérebro as rodas delicadas que eu porventura teria desgastado; eu durmo, a natureza vela, Deus vela e, amanhã, recolherei um pouco do trabalho efetuado por ambos”. (p. 73)
“Não preconizamos a estafa, a confusão do dia e da noite. Não, é preciso dormir; é indispensável o sono reparador. Dizemos apenas que a noite, como noite, pode trabalhar por si, que é ‘boa conselheira’; que o sono, como sono, é artista útil; que o repouso, como repouso, é também força. Aproveitemos estes auxílios, consoante a natureza deles e não violentando-os. O repouso não é morte; é vida, e toda a vida produz frutos. Podendo colhê-los, não deixeis aos pássaros noturnos o fruto do sono”. (p. 73-74)
“O fim do dia! Não sabemos de ordinário santificá-lo, apaziguá-lo, prepará-lo para o sono verdadeiramente reparador. Malbaratamo-lo, poluímo-lo, desorientamo-lo!” (p. 76)
“O seu serão deve ser um recolhimento, o seu jantar uma refeição leve, o seu jogo o pôr em ordem o trabalho diurno e o preparar o trabalho do dia seguinte. Precisa de Completas – desta vez tomo a palavra no sentido figurado – que completem e que inaugurem; porque o complemento dum trabalho contínuo, como nós o requeremos, é tanto um princípio como um termo. Ninguém fecha senão para tornar a abrir. O fim do dia é o órgão de ligação entre os cortes diurnos cujo total forma uma vida. De manhãzinha, é preciso começar logo a viver: para isso disponhamo-nos à noitinha e preparemos a noite que, a seu modo, solda, sem nós, os labores conscientes.
Pense o que pensar a ilusão apaixonada e interesseira daqueles que no homem pretendem reservar a parte do valdevinos, a dissipação não é repouso, é esgotamento. O repouso não pode consistir na disseminação das forças. O repouso é retrocesso para longo do esforço, no sentido das suas fontes; é restauração, não um louco gastar.
Bem sei que gastar é, por vezes, adquirir; haja vista o desporto, a recreação, e nós não só toleramos, mas até exigimos este repouso ativo. Não é esse, porém, o ofício normal do fim do dia. Para esse tempo há dois repousos, um espiritual, outro físico: o repouso em Deus e o repouso na natureza materna. Ora, o primeiro, é a oração que o dá; o segundo, o repouso do corpo, deve conduzir ao repouso da noite, já que o precede.
À noitinha, devemos entregar-nos aos ritmos suaves, de que a respiração noturna é o modelo. Deixar que se exerçam em nós os determinismos fáceis, que os hábitos substituam as iniciativas, que o ramerrão familiar tome o lugar do esforço da atividade ardente, numa palavra cessar de querer, dum certo modo, para inaugurar a renúncia da noite: eis a sabedoria. E a sabedoria reconhecer-se-á na estrutura desta vida atenuada, desta semi-atividade que se acalma. A família terá nisso a sua parte; uma conversa suave selará a união das almas; trocar-se-ão as impressões recebidas e os projetos formados; confirmar-se-ão os planos e os fins; consolar-se-á a velhice do dia; reinará a harmonia e ter-se-á celebrado uma digna vigília da festa que cada novo dia representa para o cristão.
O homem, que dorme, toma, muitas vezes, sem dar por isso, a posição que teve outrora no ventre materno. É um símbolo. O repouso volta à origem: origem da vida, origem da inspiração; retempera-se; o dobrar-se, de noite, tem uma significação. Ora, retemperar-se não é agitar-se; é como que refugiar-se, é procurar para a seiva humana, pela concentração pacífica, aumento de vigor, é restaurar em nós a vida orgânica e a vida sagrada, por um feliz repouso, pela oração, pelo silêncio e pelo sono”. (p. 77-78)
“Seja como for, depois de feita a escolha, convirá poupar os instantes escolhidos e poupar-se de si próprio, a fim de os explorar integralmente. Será preciso tudo prever para que nada venha obstruir, dissipar, reduzir ou enfraquecer tão preciosa duração. Se quereis que cia seja completa, começai por excluir as preparações longínquas; tomais todas as disposições úteis; sabei o que quereis fazer e a maneira de o fazer; juntai os materiais, as notas, os livros; não vos incomodeis com ninharias.
Além disso, para que esse tempo se conserve intacto e verdadeiramente livre, levanta-vos da cama com prontidão, a hora exata; tomai refeições frugais; fugi das conversas vãs, das visitas inúteis; limitai a correspondência ao estrito necessário; lede os jornais com moderação. Estas restrições, que apontamos como amparo da vida de estudo, aplicam-se sobretudo ao que constitui o centro dela”. (p. 79-80)
“Fazei alguma coisa ou não façais nada. Executai ardentemente o que decidis fazer, com afinco, de sorte que a atividade seja uma série de atos continuados com tenacidade. O trabalho a meias, que é repouso a meias, não favorece o estudo nem o descanso”. (p. 80)
“Chamai então a inspiração. A deusa nem sempre acudirá, mas sempre se deixa comover pelos esforços sinceros. Não quero com isto dizer que vos estafeis, mas sim que vos orienteis, que viseis ao alvo e afasteis do campo visual, como o atirador, tudo o que não for o ponto de mira”. (p. 80)
“Abrir-se assim à verdade, abstrair de tudo o mais e, se me é lícito dizer, tomar um bilhete para o outro mundo, eis o verdadeiro trabalho, do qual afirmamos que bastem duas horas por dia para levar a cabo uma obra. É pouco, mas, cumpridas todas as condições, esse pouco basta e vale muito mais do que as pretensas quinze horas de que tantos paroleiros se jactam. Certos algozes do trabalho alcançaram de fato estas cifras astronômicas; são casos para qualificar de feliz monstruosidade, quando ao de ruidosa loucura. Os trabalhadores normais apreciam mais duas a seis horas capazes de se aproveitarem de modo durável e fecundo. A questão principal não é essa, mas sim o emprego do tempo, o espírito que preside a esse emprego.
Quem conhece o valor do tempo, sempre o encontra em abundância; não podendo alongá-lo, eleva-o, e primeiramente não encurta. O tempo é espesso como o ouro; mais vale a medalha forte, bem cunhada e de liga pura; do que a folha dilatada pela arte do batedor. Muitos contentam-se com as aparências, com veleidades trapalhonas, zumbem sempre e nunca realizam trabalho algum”. (p. 81)
“Voltaremos a falar das condições desta claridade protegida; por ora; limito-me a indicar uma só: defender tenazmente a solidão. Se tendes obrigações, dai-lhes, em tempo normal, o que lhes compete; se tender amigos, combinai encontros oportunos; se a gente importuna vos solicita, fechai-lhes a porta com bons modos”. (p. 81-82)
“Falei da solidão completa, como de ambiente favorável ao trabalho. Cumpre acrescentar que a expressão não se deve tomar materialmente. Há presenças que duplicam a quietação, em vez de a dissiparem. Tende junto de vós um trabalhador ativo, um amigo absorvido nalgum pensamento ou ocupação harmoniosa, uma alma de escol que compreenda a vossa obra que se una com ela, e apoie o vosso esforço com silenciosa ternura e ardor por vós comunicado: isso não é distração, é ajuda”. (p. 82)
“O tempo dum pensador, empregado conscienciosamente, é, em todo o rigor, caridade universal. Não o apreciamos doutra maneira. O homem da verdade pertence ao gênero humano como a própria verdade: não há que temer egoísmos, quando nos isolamos em benefício desta universal benfeitoria dos homens”. (p. 83)