“Disse Bossuet: ‘O espírito do homem pode chegar ao infinito, só a preguiça põe limites à sabedoria e ás suas invenções'”. (p. 101)
“O autêntico pensador aplica-se ao trabalho com disposições diferentes; empolga-o o instinto de conquistador, um ardor, um entusiasmo, uma inspiração heroica. O herói não se fixa nem se limita. Um Guynemer considera uma vitória como ensaio para outra vitória; sempre com ânimo redobrado, voa, recomeça, alcança o adversário, volta-se contra novo adversário e só na morte vê o termo da carreira”. (p. 102)
“Seja o vosso espírito lupa, graças a uma atenção convergente; volte-se a vossa alma exclusivamente para o que se fixou em vós no estado de ideia dominante, de ideia absorvente. Seriai os trabalhos a fim de vos poderdes dar inteiramente a eles. Empreendei cada tarefa como se fosse a única. Era esse o segredo de Napoleão; é o de todos os grandes homens ativos. Os próprios gênios só se engrandeceram pela concentração das energias sobre o ponto que tinham em vista.
É preciso deixar cada coisa a si própria, fazê-la no tempo devido, reunir todas as condições dela, consagrar-lhe a plenitude dos recursos de que se dispõe e, uma vez levada a cabo, passar tranquilamente a outra. É incrível o que assim se acumula sem agitações que só desgastam”. (p. 103)
“Os vaivéns nunca triunfaram. O viajante, que tateia e envereda sucessivamente por caminhos diversos, esfalta-se, desanima, não avança. Pelo contrário, a tenacidade em trilhar o mesmo caminho e a persistência em o retomar, seguidas de repousos oportunos, isto é, depois de completa a primeira fase da ação, é o meio de produzir o máximo e ao mesmo tempo de guardar o frescor do pensamento e coragem intacta. A alma do verdadeiro trabalhador, a despeito das suas preocupações e multiplicidades sucessivas, deriva sempre, entre duas reflexões sobre o obstáculo, manter-se sossegada e nobre com a assembleia das nuvens na fimbria do Horizonte”. (p. 104)
“Afinal, o intelecto é potência passiva; a nossa força intelectual é proporcional à nossa receptividade. Não quero dizer que não haja motivo para reagir; mas a reação vital não deve mudar o teor das aquisições, visto que só as faz nossas. Um grande cultural que tome posse dum espírito, cria nele novos estímulos e aumenta-lhe a capacidade; mas, sem humildade, esta atração, exercida de fora, converte-se em manancial de mentiras. Pelo contrário, a um espírito culto e humildade as luzes acodem de todas as partes e apegam-se a ele como a aurora se apega aos cumes das montanhas”. (p. 106-107)
“Lemos, na Primeira Epístola aos Coríntios (cap. 14) que, se ao menor dos fiéis em oração for revelada alguma coisa, devem os outros calar-se e escutar. A propósito do quê, de acordo com outro conselho de S. Paulo: ‘Em toda a humildade, tende os outros por superiores’ (Fil. 2:3), observa S. Tomás: ‘Ninguém, por mais sábio que se julgue, rejeita a doutrina de outrem, por pequeno que seja’. Num determinado momento, o superior é o que se encontra mais perto da verdade e por ela se deixa iluminar.
No pensamento, o que importa não é a proveniência, são as dimensões; o que no próprio gênio interessa, não é Ariosto, nem Leibniz, nem Bossuet, nem Pascal, é a verdade. Quanto mais preciosa for uma ideia, tanto menos importa saber donde vem. Erguei-vos à indiferença das fontes. Só a verdade tem direito, e tem-no onde quer que se mostre. Não nos enfeudemos a ninguém, mas também não desprezemos ninguém, e se não é oportuno acreditar em todos, também o não é negar crédito a quem quer que seja, desde que apresente os seus títulos”. (p. 109)
“Um problema nunca pode encerrar-se em si mesmo; transborda sempre, em razão da sua natureza, porque a inteligibilidade por ele invocada provém de mananciais que o transcendem. Vem aqui a propósito o que dissemos da ciência comparada. Cada objeto de estudo pertence a um todo onde produz e recebe ação, sofre e propõe condições; não pode ser estudado à parte. A especialidade ou análise pode ser um método, não deve ser um espírito. Deixar-se-á o trabalhador iludir pelo seu próprio estratagema? Isolo uma peça dum mecanismo, a fim de a considerar mais detidamente; mas enquanto a tenha nas mãos e examino, o pensamento deve repô-la no seu lugar, vê-la acionar o todo, sem o quê a verdade ficará alterada”. (p. 110)
“O gênio consiste em ver no trabalho o que lá não está, e nos livros o que eles não são capazes de dizer. O genuíno tesouro dum texto oculta-se nas entrelinhas; estas sugerem, fazem pensar que nada é estranho aos mais profundos pensamentos do homem. Portanto, em vez de os diminuir e esvaziar, dai aos assuntos restritos o que constitui a sua sólida substância, a saber o que lhes não pertence, mas é comum a elas e a outros, e a eles e a todos, como a luz é comum às cores e á sua distribuição nos seres”. (p. 112)
“O senso do mistério deve permanecer, mesmo depois do nosso esforço máximo e depois que a verdade parece sorrir-nos. Quem julga compreender tudo, prova que nada compreende. Os que se contentam com respostas provisórias a problemas que na realidade se põem, falseiam sempre a resposta não sabendo que ela é parcial”. (p. 113-114)