“Em todas as coisas, é preciso começar: ‘o começo é mais que metade duma coisa’, disse Aristóteles. Quem não produz, habitua-se à passividade; o medo de orgulho – porque o orgulho também gera o medo – ou a timidez aumentam mais e mais; recuamos, cansamo-nos de esperar, tornamo-nos improdutivos.” (p. 157)
“Podem-se explicar as qualidades do estilo em tantos artigos quantos se quiser; tudo, porém, creio eu, se resume em três palavras: verdade, individualidade, simplicidade, a não ser que se prefira sintetizar nesta única frase: escrever verdade.” (p. 158)
“Para obedecer às leis do pensamento tenho de me mostrar perto das coisas ou, antes, no íntimo delas, porque pensar é conceber o que é, e escrever verdade, ou por outra escrever de acordo com o pensamento, é revelar o que é, e não enfiar frases. Por isso o segredo de escrever consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas, até que elas vos falem e determinem os termos que as devem exprimir.” (p. 159)
“Uma vez que determinastes um pensamento ou sentimento, expressai-o de sorte que todos vos compreendam, como convém a um homem que fala a outros homens e procura atingir neles o que direta ou indiretamente é órgão de verdade. ‘Um estilo completo é o que alcança todas as almas e todas as faculdades das almas.” (p. 162)
“O estilo, e dum modo mais geral, o trabalhador criador requer desapego. Afasta-se a personalidade atravancadora e esqueça-se o mundo. Quem pensa na verdade não pode deixar-se distrair por si próprio. Que esperar no homem que para em si? Eu espero naquele que se atira, longe da personalidade efêmera, para o imenso e o universal, que caminha, astrônomo, em companhia dos astros, poeta, filósofo, teólogo, em companhia da matéria animada ou inanimada, em companhia da humanidade individual e social, em companhia das almas, dos anjos e de Deus. Creio nesse, porque nele habita o espírito da verdade, e não preocupações mesquinhas.” (p. 163)
“Logo, não nos importemos do próximo, nem curemos de ser úteis? O intelectual pertence a todos e cumpre-lhe não o esquecer. Mas tomar a peito o seu útil não, é o mesmo que pedir uma ordem. Não precisamos de nos deixar influenciar pelo que dirão; precisamos, sim, de evitar andar de viés debaixo da pressão dum conformismo cobarde, que se diz amigo de todos, para que todos em troca lhe retribuam complacência.” (p. 166)
“O trabalho criador exige ainda outras virtudes. Reúno aqui três das exigências que mutuamente se corroboram para que uma obra não seja curta nem indigente. Precisamos trabalhar com constância, com paciência, com perseverança. A constância mantêm-se a pé firme, a paciência suporta as dificuldades, a perseverança evita o gasto da vontade.” (p. 167-168)
“‘Não se julgue fácil a vida de estudo’, escreve Nicole… Porque nada contraria tanto a natureza como a uniformidade e o repouso, porque nenhuma outra coisa nos oferece maior ensejo de viver conosco. A mudança e as ocupações exteriores levam-nos para fora de nós e divertem-nos, fazendo-nos esquecer a nós próprios. Além disso, a linguagem das palavras é sempre um pouco morta, não excita vivamente o amor-próprio, nem desperta as paixões. É destituída de ação e de movimento… Fala-nos pouco de nós e dá-nos poucas vezes a ocasião de nos vermos com prazer. Lisonjeia pouco as nossas esperanças, e tudo isto contribui para mortificar enormemente o amor-próprio que, não estando satisfeito, derrama a preguiça e o tédio sobre todas as ações.” (p. 168).
“Quem não conhece os intelectuais que trabalham às arremetidas, por fases entrecortadas de preguiça e de negligência? Há rasgões no estofo do seu destino, esse destino que eles transformam em rodilha cheia de remendos, quando deveria ser preciosa tapeçaria. Nós queremos ser intelectuais todo o tempo e queremos que isso conste. Damo-nos a conhecer pela maneira como repousamos e nos distraímos, pela maneira como atamos os sapatos; com muito maior razão se verá quem somos pela fidelidade ao trabalho, ou seja, pela pontualidade em retomar a nossa tarefa.” (p. 168)
“Muito amiúde somos tentados a perder tempo porque ‘não vale a pena pôr ombros à empresa’, porque ‘está quase a ser hora’. Não refletimos que estes bocados de duração, que de fato se adaptam mal a uma empresa, estão naturalmente indicados para preparar o trabalho ou para lhe dar um retoque, para verificar referências, tirar notas, classificar documentos etc. O tempo assim aproveitado é tempo que se forra para as verdadeiras sessões laboriosas, e os instantes assim empregados são tão úteis como os outros, porque estas pequeninas tarefas dizem-lhes respeito e são indispensáveis.
Durante as horas de trabalho intenso, assalta-nos a tentação de interromper o esforço, desde que o menor incidente traz a ‘languidez’ e provoca o ‘tédio’ de que fala Nicole. A preguiça é muito manhosa, exatamente como as crianças. Enquanto buscamos uma palavra que nos não acode, entretemo-nos a desenhar bonecos, e forçosamente o boneco terá de ser concluído. Quando abrimos o dicionário, atrai-nos uma curiosidade verbal, depois outra, e lá ficamos presos como numa sarça. Caem-nos os olhos sobre um objeto, vamos ordená-lo e um útil entusiasmo nos retém durante um quarto de hora. Alguém passa na rua; um amigo está na sala vizinha; o telefone tenta os nossos lábios… ou então é o jornal que chega, cravais nele o olhar e bem depressa vos distrais. Ideia puxa ideia, e pode suceder que o próprio trabalho vos afaste do trabalho, pelo fato de vos deixardes arrastar para as perspectivas abertas diante do espírito por um devaneio acaso provocado por algum pensamento.” (p. 169-170)
“Recusai energicamente qualquer passagem injustificada. Se vos sentirdes muito cansados, interrompei voluntariamente o trabalho para depois o retornar com novo afinco. O enervamento seria contraproducente. Uns momentos de leitura dum autor favorito, uma recitação em voz alta, uma oração feita de joelhos para modificar o estado orgânico e para libertar o espírito, uns momentos de respiração ao ar livre, alguns movimentos rítmicos: eis os remédios possíveis. Após o quê, voltai à carga.” (p. 170)
“A constância vence ainda as impressões de falso cansaço que se apoderam do espírito e do corpo. Quem faz alpinismo sente-se muito frequentemente esbaforido e pesado ao fim de algum tempo; o busto curva-se para diante; de bom grado arepiaria caminho. Ora persisti: as articulações desenferrujam-se, os músculos treinam-se, a respiração dilata-se e começa-se a experimentar a alegria da ação. O mesmo acontece com o estudo. Longe de ceder à primeira impressão de fadiga, rompei para a frente, forçai a energia interior a sair. Pouco a pouco as rodas entra a funcionar, adaptamo-nos, e à inércia dolorosa pode suceder um período de entusiasmo.” (p. 171)
“Transponde as dificuldades sem desanimar e sem perder o domínio do vosso ser. A sessão de trabalho assemelha-se a terreno de corridas cortado de obstáculos. Salta-se uma sebe, um pouco mais longe parece um fosso, depois um talude, e assim por diante. Chegamos à primeira barreira, não nos detemos, saltamos, certos de que entre os obstáculos se estendem zonas planas por onde se corre sem embaraço. Uma dificuldade vencida ensina a vencer outras dificuldades; um esforço poupará outros esforços: a coragem dum minuto vale tanto como um dia, e o trabalho duro tanto como o trabalho fecundo e alegre.” (p. 171-172)
“Pergunta Amiel no seu Diário: ‘Por que és fraco? – Porque cedeste dez mil vezes, convertendo-te em joguete das circunstâncias. Forte tu que as fizestes fortes, não elas que te fizeram fraco.'” (p. 172)
“Aprendei a ser constantes pela aplicação e porfia em recomeçar: dia virá em que se dissiparão os langores persistentes, e em que os tédios momentâneos não surtirão efeito. Sereis então um homem. O trabalhador sem constância não passa de criança.” (p. 172)
“Os leitores acharão muito naturais os vossos êxitos, criticarão duramente os vossos desfalecimentos; não suspeitarão quanto trabalhares. Nem é preciso, ‘As obras realizadas à custa de grande trabalho’, dizia Miguel Angelo, ‘devem dar a impressão de terem sido fáceis de conceber e executar… A grande regra consiste em esforçar-se muito para criar coisas que parecem não terem custado nada’. Por sua vez, Boileau gabava-se de ter aprendido, em Racine, a arte de compor dificilmente versos fáceis. Em matéria de ciência, dizia Biot: ‘Nada é tão simples como o que se descobriu ontem, nem tão difícil como o que se há de encontrar amanhã’. São segredos que o público não suspeita. Carregareis a vossa carga sozinho, e os homens superiores avisam-vos que o pensamento é a mais pesada carga que o homem pode levar.” (p. 173)
“Perseverar é querer; quem não persevera, não quer, projeta. Quem larga, nunca segurou; quem cessa de amar, nunca amou. O destino é um só, e com muito maior razão uma obra parcial. O verdadeiro intelectual é, por definição, perseverante. Assume a tarefa de aprender e de instruir; ama a verdade com toda a alma; é um consagrado: não se subtrai prematuramente.” (p. 175-176)
“Determinada a tarefa, perseverai nela com rigor maleável: excluí os deveres inferiores, mas ainda as infidelidades. Esforçai-vos em profundidade, a fim de conquistar a duração naquela das suas dimensões que vos é diretamente acessível. Envolvido na sua onda, não abandoneis, que ela não vos largará. Pertencereis então ao número dos pensadores fiéis. Os gigantes do trabalho, os Aristóteles, os Agostinhos, os Albertos Magnos, os Tómas de Aquino, os Leibniz, os Littré, os Pasteur, reconhecer-vos-ão por filhos, e partireis dignamente ao encontro d’Aquele que pacientemente vos espera.” (p. 176)
“Medi dez vezes, mas cortai uma só; preparai o estofo com cuidado, e, quando chegar o momento de coser, não desistais da obra começada.
Donde se segue que haveis de coser o melhor que puderdes. Acabado significa terminado, mas significa também perfeito, e ambos estes sentidos se corroboram. Não termino verdadeiramente o que me recuso a encaminhar para o melhor resultado. O que se não perfaz não é. Segundo Spinoza, o ser e a perfeição respondem à mesma ideia; o ser e o bem são convertíveis.” (p. 178)
“Vem aqui a propósito um conselho prático. Depois de vos terdes decidido a empreender um trabalho, depois que o concebestes, preparastes e que estais em via de o começar, determinai imediatamente, por um esforço vigoroso, o valor que ele deve revestir. Se o não fizerdes então, nunca o fareis. Se a preguiça vos soprar: cessa agora, mais tarde voltarás à carga, respondeu que esses retornos são as mais das vezes pura ilusão. Uma vez descida a encosta, dificilmente se torna a subir por ela. Não encontrareis a coragem de repensar ab ovo uma obra medíocre; a cobardia de hoje é má garantia para o heroísmo de amanhã. Quanto às correções que podereis introduzir, por perfeitos que sejam, destoariam sempre. Toda obra quer ser feita dum arranque. Observa Beethoven que um trecho acrescentado posteriormente nunca se adapta ao caráter da composição. Ticiano retomava a fundo, mas de acordo com a primeira inspiração, visando apenas rematar; não modificava os dados primordiais, nem a composição, nem as linhas básicas. Dado o primeiro passo o resto vinha por acréscimo.” (p. 179)
“Esta severidade supõe que os trabalhos empreendidos se adaptam às vossas forças e por elas se medem. Se a presa for mais forte do que o caçador, devora-o. Nesse caso é ridículo traçar regras. Ninguém recomenda ao caçador lebres que ataquem o leopardo deste ou daquele modo.” (p. 180)
“Discerni em todas as ocasiões o esforço que vos convém, a disciplina de que sois capazes, os sacrifícios em que podeis consentir, a matéria que podeis tratar, a tese que podeis escrever, o livro que vos pode ser útil, o público a quem podeis servir. Julgai de tudo isto com humildade e confiança. Se preciso for, pedi conselho, sem esquecer, no entanto, que nos conselheiros abundam a leviandade e a indiferença. Fixai-vos o melhor que puderdes. Após o quê, aplicai-vos ao trabalho de alma e coração.” (p. 180)
“As condições do êxito são as mesmas em todas as coisas: refletir ao princípio, começar pelo começo, proceder com método, envidar todos os esforços. Mas a reflexão inicial tem por objeto primário determinar aquilo para que somos feitos. O conhete-te a ti mesmo de Sócrates não encerra apenas a chave da moral, mas a de toda a vocação, visto que ser chamado a alguma coisa é ver abrir-se, diante de si, um caminho na amplidão da vida humana.” (p. 181)