“Depois de haver perdido tanto e, na aparência, forjado tantas cadeias, será porventura ironia abeirar-me uma vez mais do intelectual e recomendar-lhe que guarda a liberdade da alma? O que mais importa à vida, não são os conhecimentos, é o caráter, e o caráter estaria ameaçado, se o homem se mantivesse, por assim dizer, debaixo do seu trabalho, oprimido pelo rochedo de Sísifo. Há outra ciência diferente daquela que se confia à memória: a ciência de viver. O estudo deve ser ato de vida, deve ser útil à vida, deve sentir-se impregnado de vida. Das duas espécies de espíritos – os que se esforçam por saber alguma coisa e os que tentam ser alguém -, a palma pertence por muitos motivos à segunda. No saber, tudo é esboço: concluída a obra, temos o homem.” (p. 182)
“Quem só pensa no seu trabalho, trabalha mal; diminui-se; toma um vinco profissional, que se converterá em tara. O espírito deve manter-se aberto, guardar o contato com a humanidade e com o mundo, a fim de sair de cada sessão de estudo com capacidade para novo voo.” (p. 183)
“A música tem de precioso para o intelectual o não determinar nem perturbar coisa alguma. Supedita apenas o estado de alma, que, aplicados a esta ou àquela tarefa, surtirão efeitos diversos. Rodin fará dela uma estátua, Corot uma paisagem, Gratry uma página ardente, Pasteur uma pesquisa mais apaixonada e mais atenta. Tudo reside na harmonia e tudo se regenera. O ritmo, pai do mundo, e também o pai do gênio, onde o mundo se reflete. No horizonte indistinto do sonho, cada qual vê subir a imagem da sua preferência e inscreve rastos dela na sua língua.” (p. 185)
“Por conseguinte, vós, que pretendeis consagrar-vos vocação do estudo não volteis as costas ao resto da vida, por causa do estudo. Não renuncieis a coisa alguma que seja do homem. Guardai equilíbrio onde o peso dominante não ameaçar arrastar tudo após si. Sabei estabelecer uma tese e olhar uma aurora, embrenhar-vos nas profundas abstrações e brincar com as crianças, como o divino Mestre. Hoje as ‘togas de pedantes’ e as ‘borlas’, de que zombava Pascal, já não têm curso; mas subsistem, estão nas almas: não vos adereceis com elas. Recusai ser cérebro despegado do corpo e homem diminuído na alma. Não convertais o trabalho em monomania.” (p. 186)
“Cortem-se os excessos. O trabalho, precisamente porque é dever, exige limites que o mantenham em vigor e duração e lhe procurem, no decurso da vida, a maior soma de efeitos de que é capaz.” (p. 187)
“Podemos admitir sem paradoxo estas palavras de Bacon, que os dados da fisiologia corroboram: ‘estudar tempo demais é uma maneira de preguiça’. É preguiça diretamente, por ser incapacidade de dominar um determinismo, de manejar um freio. É preguiça indiretamente, porque recusar um repouso é recusar implicitamente um esforço que o repouso permitiria e que o excesso de cansaço compromete. É preguiça ainda de outro modo mais oculto. Com efeito, o repouso é, fisiologicamente, um enorme trabalho. Quando se interrompe a atividade pensante, o gênio interior do corpo empreende uma restauração que ele quereria que fosse completa. O pretenso lazer não passa de transformação de energia.” (p. 188)
“O dispor os trabalhos de acordo com a colaboração que exige do cérebro oferece dupla vantagem: evita o excesso de cansaço e comunica ao trabalho intenso toda a sua pureza. Quando se não previu o repouso, o repouso, que não se toma, toma-se; intercala-se sub-repticiamente no trabalho, sob forma de distrações, de sonolência e de necessidade a que é preciso atender, por se não cuidar delas a tempo.” (p. 189)
“Também neste particular cumpre evitar os excessos. Um repouso demasiado longo não só devora o tempo como também prejudica o ardor duma vida laboriosa. Importa sumamente descobrir o ritmo que permite esse ardor máximo aliado ao mínimo de fadiga. Trabalhar muito tempo seguido estafa; interromper-se demasiado cedo é não dar a sua medida. Do mesmo modo, descansar muito tempo seguido é destruir o ardor adquirido; repousando demasiado pouco, não se restauram as forças. Tratai de vos conhecer e de dosear em conformidade com esse conhecimento. Sob esta reserva, os repousos frequentes e curtos, que descansam sem, todavia, interromperem totalmente o trabalho, são os mais favoráveis.” (p. 190-192)
“Se vos censuram, em vez de reagir dentro ou fora, como o animal que se eriça, observai, como homem, o alcance do que se diz; sede impessoal e íntegro. Se a crítica for justa, haveis de resistir à verdade? Embora, no ponto de partida se revelasse má vontade contra vós, tende a coragem de confessar o vosso erro, e o nobre propósito de utilizar a malevolência que Deus põe ao vosso serviço, porque até o mal está nas mãos de Deus, e a crítica mordaz, que vos fere, concorre para o vosso aproveitamento.” (p. 193)
“Quando nada há que retirar dum ataque, deve a própria pessoa tratar de se retirar incólume, isenta de enfraquecimento e de rancor, e, mais do que isso, engrandecida e melhorada pela prova. A verdadeira força espiritual exalta-se na perseguição; geme, por vem, mas o seu gemido assemelha-se ao de toda criatura que ‘geme e dá à luz’, como diz o Apóstolo.” (p. 193-194)
“Quando se possuem as disposições requeridas e a alma se consagra a uma obra, quando se estuda bem e se lê bem, quando se anota bem, quando se faz trabalhar a inconsciência e a noite, os trabalhos que se preparam são como a semente acalentada pelo sol, como a criança que a mãe dá à luz no meio de dores, mas tão feliz por ter nascido um homem que não mais se recorda dos padecimentos (Jo. 16, 21).” (p. 196)
“Não há virtude sem crescimento, sem fecundidade, sem alegria; também não há luz intelectual sem que estes efeitos dela derivem. Sábio (sapiens), etimologicamente, quer dizer que tem gosto ou discernimento, e o discernimento é um só, compreendendo a dupla regra do pensamento e da ação.” (p. 197)
“O verdadeiro intelectual não teme a esterilidade, a inutilidade; basta que a árvore seja árvore para produzir frutos. Os resultados chegam por vezes tarde, mas chegam sempre; a alma paga, os acontecimentos pagam. Se não está em nossa mão igualar-nos com o que admiramos, podemos sempre igualar-nos a nós mesmos. Uma vez mais repetimos: não pretendemos outra coisa.” (p. 198)