A Vida Intelectual - A. D. Sertillanges

Capítulo I - A Vocação Intelectual

I - O intelectual é um consagrado

“Os atletas da inteligência, como os atletas do desporto, têm de prever privações, longos treinamentos e tenacidade por vezes sobre-humana. Precisam de se dar de alma e coração à conquista da verdade, visto que a verdade só presta serviços a quem a serve”. (p. 6)

“Se sois porta-luz não escondais, debaixo do alqueire, o brilho pequeno ou grande que de vós se espera na casa do Pai de Família. Amai a verdade e os seus frutos de vida, para bem vosso e dos outros; consagrai ao estudo e à sua utilização o principal do vosso tempo r do vosso coração”. (p. 7-8)

“‘Ah, se a juventude soubesse’. Mais do que ninguém, precisam os jovens deste aviso. A ciência é conhecimento pelas causas; mas ativamente, quanto à sua produção, é criação pelas causas. É preciso conhecer e adotas as causas do saber, depois coaduná-las e não adiar o cuidado de lançar os alicerces até o momento de assentar o telhado”. (p. 9)

“Quantos jovens, que nutrem a pretensão de vir a ser trabalhadores, malbaratam miseravelmente os dias, as forças, a seiva intelectual! Ou não trabalham, quando lhes sobre tempo de o fazer, ou trabalham mal, caprichosamente, sem saberem o que são, nem para onde querem ir, nem como se anda. Cursos, leituras, frequentações, dosagem do trabalho e do descanso, da solidão, e da ação, arte de extrair e de utilizar os elementos adquiridos, realizações provisórias que anunciam o trabalho próximo, virtudes a alcançar e a desenvolver, nada se prevê, nada será satisfeito”. (p. 10)

“Se para produzir não faz falta o gênio, menos falta ainda faz a plena liberdade, tanto mais que esta tem armadilhas, e para as vencer pode concorrer imenso o estar adstrito a rigorosas obrigações. Uma corrente apertada entre margens estreitas irromperá mais longe. A disciplina do ofício é forte escola que aproveita aos lazeres estudiosos. O homem, quando constrangido, concentra-se mais, aprende a avaliar o tempo, refugia-se com ardor nas horas raras em que, satisfeito o dever, se torna a encontrar o ideal e se goza da calma da ação escolhida, após a ação imposta pela dura existência”. (p. 10)

“Não desanime. Se tem tudo contra si, guarde-se a si próprio, e que isso lhe baste. Um coração ardente dispõe de maiores probabilidades de vencer, embora em pleno deserto, do que um estúrdio do Bairro latino que não sabe aproveitar as facilidades que tem à mão. Também aqui, da dificuldade pode brotar a força. Sobre a montanha, só nos especamos nas passagens difíceis; nos caminhos planos avançamos folgados, e a folga, não vigiada, depressa se torna funesta”. (p. 11)

“O querer vale mais do que tudo: querer ser alguém, chegar a ser alguma coisa; ser já, pelo desejo, esse alguém qualificado pelo ideal. O resto sempre se alcança. Livros, há-os em toda a parte; além disso, poucos bastam. Frequentações, estímulos, encontramo-los em espírito na solidão: os grandes seres estão por lá, presentes a quem os invoca, e por detrás do pensador ardente arguem-se os grandes séculos. Os que têm a facilidade de assistir a cursos, ou os não seguem ou os seguem mal, se, em caso de necessidade, não tiverem em si recursos para deles prescindirem. Quanto ao público, por vezes anima-vos, ordinariamente perturba-vos e dispersa-vos. Não vos arrisqueis a perder uma fortuna por uma colher de mel coado. Mais vale a solidão apaixonada, onde qualquer semente rende cem por um e um simples raio de sol doura os frutos do outono”. (p. 11-12)

II - O intelectual não é um isolado

“O trabalhador cristão, em virtude da sua vocação intelectual de consagrado, não deve isolar-se. Seja qual for a sua situação, julguem-no abandonado ou retirado materialmente, não deve deixar-se tentar pelo individualismo, imagem deformada da personalidade cristã. Se a solidão vivifica, o isolamento paralisa e esteriliza. À força de ser alma, cessa-se de ser homem, diria Vitor Hugo. O isolamento é inumano; porque trabalhar humanamente é trabalhar com o sentimento do homem, das suas necessidades, das suas grandezas, da solidariedade que nos liga numa vida estreitamente comum”. (p. 14)

III - O intelectual pertence ao seu tempo

“Em seguida, pensai que, se todos os tempos são iguais perante Deus, se a sua eternidade é centro irradiante, a igual distância do qual correm todos os pontos da circunferência do tempo, não sucede o mesmo na relação dos tempos conosco, que habitamos a circunferência. Estamos aqui, na vasta roda, não noutra parte. Foi Deus que nos colocou aí. Qualquer momento da duração nos diz respeito e qualquer século é nosso próximo, do mesmo modo que qualquer homem; esta palavra – próximo – é termo relativo, que a providencial sabedoria determina para cada qual e que cada qual, na sua sabedoria restrita, deve igualmente determinar”. (p. 16)

Capítulo II - As Virtudes do Intelectual Cristão

I - As virtudes comuns

“A virtude contém, em certo modo, a intelectualidade em potência, uma vez que, levando-nos ao nosso fim, que é intelectual, equivale ao supremo saber”. (p. 18)

“A verdade vem ao encontro dos que a amam, dos que lhe não resistem, e este amor pressupõe a virtude. Pelo que, a despeito de possíveis taras, o gênio, que no trabalho é já virtuoso, para ser santo só precisaria de ser mais plenamente o que é. A verdade medra na mesma terra que o bem; as raízes duma e doutro comunicam entre si. Desligados desta raiz comum e, por conseguinte, menos ligados à sua terra, ambos vêm a sofrer: ou a alma se torna anêmica ou o espírito se estiola. Pelo contrário, alimentando a verdade, ilumina-se a consciência; fomentando o bem, guia-se o saber”. (p. 19)

“Como querereis pensar bem com a alma doente, com o coração trabalhado pelos vícios, solicitado pelas paixões, desorientado por amores violentos ou culpados? Há um estado clarividente e um estado cego da alma, dizia Gratry, um estudo são e conseguintemente sensato, e um estado insensato. ‘O exercício das virtudes morais, afirma por sua vez S. Tomás de Aquino, das virtudes que refreiam as paixões, importa sobremaneira para a aquisição da ciência'”. (p. 20)

“A ‘psicologia dos sentimentos’ governa a prática, mas também, em grande parte, o pensamento. A ciência depende das orientações passionais e morais. Apaziguar-nos é desembaraçar em nós o senso do universal; retificar-nos, é desobstruir o senso da verdade. Continuai a analisar. Quais são os inimigos do saber? Evidentemente a ininteligência: e, por isso, o que dizemos dos vícios, das virtudes e dos seu papel na ciência, pressupõe sujeitos no restante iguais. Mas, à parte a loucura, que inimigos temeis? Não pensais na preguiça, sepulcro dos melhores dons? Na sensualidade, que enfraquece e prostra o corpo, enegrece a imaginação, embota a inteligência, dissipa a memória? No orgulho, que ora deslumbra ora entenebrece, que nos arrasta para o nosso próprio senso a ponto de nos fazer perder o senso universal? Na inveja que recusa obstinadamente uma claridade vizinha? Na irritação que rejeita as críticas e se apega ao erro?” (p. 21)

Capítulo III - A Organização da Vida

III - Cooperar com os seus iguais

“A amizade é maiêutica que extrai de nós os mais ricos e íntimos recursos; desdobra as asas dos sonhos e dos obscuros pensamentos; inspeciona os juízos, experimenta as ideais novas, entretém o ardor e inflama o entusiasmo”. (p. 50)

IV - Cultivas as relações necessárias

“É preciso que, na medida em que nos for dado escolher, disponhamos as coisas de maneira a convizinhar o mais possível com pessoas superiores. A esposa dum intelectual deve também zelar por isto. Não abra a um qualquer as postar de casa; que o seu tato seja como crivo; à sociedade da alta roda prefira a das almas nobres; aos pretensos homens de gênio prefira gente de peso, instruída e de juízo sólido, visto que no mundo tanto mais e passa por um homem de gênio quanto mais se matou a inteligência. Sobretudo não vá ela, por leviandade ou vaidade, por qualquer interesse reles, introduzir o marido na companhia de insensatos”. (p. 52-53)

“A sociedade é livro para ler, embora livro banal. A solidão é obra-prima; mas recordai-vos do que dizia Leibniz, a saber, que sempre retirava utilidade até da leitura dos piores livros. Nunca pensais só, como nunca pensais só com a inteligência. Esta associa-se às demais faculdades, a alma associa-se ao corpo, a pessoa associa-se às suas relações; o ser pensante é tudo isto: componde-o o melhor que puderdes, mas de sorte que as próprias taras, e as enfermidades, se convertam em valores, por meio de qualquer indústria feliz da grandeza de alma”. (p. 53)

“Sendo moderados nas conversas, permanecereis recolhidos e lograreis a sabedoria indispensável para o intercâmbio das ideias com o próximo. Falar para dizer o que se deve dizer, para exprimir um sentimento oportuno ou uma ideia fútil depois disso calar-se, eis o segredo de o intelectual se guardar ao mesmo tempo em que se comunica. Não existe outro meio de dar autoridade à palavra. A palavra pesa, quando por debaixo dela se pressente o silêncio, quando esconde e deixa adivinhar, por trás dos sons, um tesouro que vai dispensando com medida sem pressa nem agitação. O silêncio é o conteúdo secreto das palavras importantes. O valor duma alma mede-se pela riqueza do que ela não diz“. (p. 53)

V - Conservar a dose necessária da ação

“Tudo isso é recomendável. Porque, se, no mundo, cada coisa tem a sua medida, a vida interior não escapa a esta lei. Requere ela que ação se limite e ceda o passo à solidão, porque a ação exterior agita a alma, enquanto o silêncio a acalma; mas o silêncio exagerado causa também agitação: o refluxo do homem todo para a cabeça desorienta e dá tonturas; daí a necessidade de diversão para a vida cerebral a necessidade do calmante da ação”. (p. 55)

VI - Manter o silêncio interior

“Se não me engano, tudo isto resulta que a solidão útil, o silêncio, o retiro do pensador são realidades mitigadas, animadas por um espírito de exigência estrita. Se, de facto, o intelectual é consagrado e se não há possibilidade de servir a dois senhores, a ação e as frequentações devem ser condicionadas e doseadas pelo retiro, pelo silêncio e pela solidão interior.

Por conseguinte, o que importa é o espírito de silêncio. Costuma-se dizer que a solidão é mão das obras. Mas exato seria dizer: o estado de solidão. Tão verdade isto é que, em rigor, podemos conceber uma vida intelectual fundada num trabalho de duas horas por dia, o que não quer dizer que, salvas essas duas horas, possamos em seguida proceder como se elas não existissem. Essas duas horas são dedicadas à concentração; independentemente delas, requer-se a consagração de toda a vida”. (p. 58)

“Ficar em si e entregar-se à garrulice interior, às sacudidelas dos desejos, à exaltação do orgulho, ao fluxo de pensamentos que introduzem em nós um mundo externo absorvente e cheio de discórdia, será isto a solidão? Há uma falsa solidão, como há uma falsa paz. Pelo contrário, sair e agir por dever, por prudência ou pelo cuidado de tomar descanso, […] pode ser uma solidão superior, que alimenta e tonifica a alma em vez de a apoucar”. (p. 59)

Capítulo IV - O tempo de trabalho

I - O trabalho permanente

“Será isso possível? É, sim: a experiência e a psicologia o ensinam. O cérebro trabalha sem remissão; as turbinas, que reclamo, existem, giram, arrastando em suas voltas um sistema de rodas donde se escapam as ideias como as centelhas dum dínamo em pleno rendimento. Os processos nervosos encadeiam-se em série contínua e não param do mesmo modo que os movimentos do coração ou dos pulmões. Que falta para aproveitar, em favor da verdade, esta vida permanente? Só a disciplina. É preciso que os dínamos estejam ligados às turbinas, as turbinas às correntes de água, é preciso que o desejo de conhecer acione regularmente, e não por intermitências, o funcionamento cerebral, consciente ou inconsciente.

A maior parte da atividade nervosa de nada serve, pela simples razão de não ser captada. A falar a verdade, nunca o será totalmente, porque o nosso poder sobre ela é relativo, e, se tentarmos forçar o rendimento, arriscamo-nos a quebrar a máquina. Mas para obter o máximo, basta relativamente pouca dessa atividade, desde que saibamos cultivar o hábito. Este, bem montado, opera como segunda natureza. Têm aqui lugar os nossos conselhos práticos”. (p. 61)

“Aprendei a olhar; confrontai o que se vos oferece com as ideias que vos são familiares e secretas. Numa cidade não vejais somente casas, mas vida humana e história. Que um museu vos não mostre apenas quadros, mas escolas de arte e de vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento inspirador, dos sentimentos. Que uma oficina vos não fale apenas de ferro e de madeira, mas da condição humana, do trabalho, da economia antiga e moderna, das relações entre as classes. Que as viagens vos ensinem a conhecer a humanidade; que as paisagens evoquem a vossos olhos as grandes leis do mundo; que as estrelas vos falem das durações incomensuráveis; que as pedras do caminho sejam para vós o resíduo da formação da terra; que a visa duma família se associe em vós à das gerações, e que a menor frequentação vos informe sobre a alta concepção do homem. Se não souberdes olhar assim, tornar-vos-eis banal, se já o não sois. O pensador é filtro onde a passagem da verdade deixa o melhor da sua substância”. (p. 63-64)

“O pensador só é verdadeiramente pensador, se encontrar, no mais pequeno impulso de fora, a ocasião dum entusiasmo ardente. O seu caráter consiste em conservar, pela vida fora, a curiosidade da infância, a vivacidade de impressão, a tendência para ver tudo sob o ângulo do mistério, a feliz faculdade de encontrar em toda a parte surpresas fecundas”. (p. 64-65)

II - O trabalho noturno

“Durante o sono, completa-se e encadeia-se o trabalho cerebral começado e a ideia encetada que um incidente interno ou externo impedira de desabrochar internamente: não percais esta ocasião de lucro; recolhei essa claridade que vos pode servir de ajuda, antes que ela torne a mergulhar na noite mental”. (p. 70)

“Cuidado, não basta o cuidado de colher. O sono, que trabalha sozinho, trabalha sobre matéria preexistente; não cria coisa alguma; hábil em combinar e em simplificar, em levar a termo, só opera sobre os dados da experiência e o labor diurno. Precisa, pois, de que lhe preparem a tarefa. Contar com ele é, antes de tudo, contar consigo”. (p. 72)

“Não façais esforço que retarde o sono, mas acalmai neste pensamento: o universo trabalha por mim; o determinismo é escravo da liberdade e, enquanto descanso, ele rodará a sua mó; posso adiar o esforço: os céus rolam e, rolando, movem no meu cérebro as rodas delicadas que eu porventura teria desgastado; eu durmo, a natureza vela, Deus vela e, amanhã, recolherei um pouco do trabalho efetuado por ambos”. (p. 73)

“Não preconizamos a estafa, a confusão do dia e da noite. Não, é preciso dormir; é indispensável o sono reparador. Dizemos apenas que a noite, como noite, pode trabalhar por si, que é ‘boa conselheira’; que o sono, como sono, é artista útil; que o repouso, como repouso, é também força. Aproveitemos estes auxílios, consoante a natureza deles e não violentando-os. O repouso não é morte; é vida, e toda a vida produz frutos. Podendo colhê-los, não deixeis aos pássaros noturnos o fruto do sono”. (p. 73-74)

III - A madrugada e os serões

“O fim do dia! Não sabemos de ordinário santificá-lo, apaziguá-lo, prepará-lo para o sono verdadeiramente reparador. Malbaratamo-lo, poluímo-lo, desorientamo-lo!” (p. 76)

“O seu serão deve ser um recolhimento, o seu jantar uma refeição leve, o seu jogo o pôr em ordem o trabalho diurno e o preparar o trabalho do dia seguinte. Precisa de Completas – desta vez tomo a palavra no sentido figurado – que completem e que inaugurem; porque o complemento dum trabalho contínuo, como nós o requeremos, é tanto um princípio como um termo. Ninguém fecha senão para tornar a abrir. O fim do dia é o órgão de ligação entre os cortes diurnos cujo total forma uma vida. De manhãzinha, é preciso começar logo a viver: para isso disponhamo-nos à noitinha e preparemos a noite que, a seu modo, solda, sem nós, os labores conscientes.

Pense o que pensar a ilusão apaixonada e interesseira daqueles que no homem pretendem reservar a parte do valdevinos, a dissipação não é repouso, é esgotamento. O repouso não pode consistir na disseminação das forças. O repouso é retrocesso para longo do esforço, no sentido das suas fontes; é restauração, não um louco gastar.

Bem sei que gastar é, por vezes, adquirir; haja vista o desporto, a recreação, e nós não só toleramos, mas até exigimos este repouso ativo. Não é esse, porém, o ofício normal do fim do dia. Para esse tempo há dois repousos, um espiritual, outro físico: o repouso em Deus e o repouso na natureza materna. Ora, o primeiro, é a oração que o dá; o segundo, o repouso do corpo, deve conduzir ao repouso da noite, já que o precede.

À noitinha, devemos entregar-nos aos ritmos suaves, de que a respiração noturna é o modelo. Deixar que se exerçam em nós os determinismos fáceis, que os hábitos substituam as iniciativas, que o ramerrão familiar tome o lugar do esforço da atividade ardente, numa palavra cessar de querer, dum certo modo, para inaugurar a renúncia da noite: eis a sabedoria. E a sabedoria reconhecer-se-á na estrutura desta vida atenuada, desta semi-atividade que se acalma. A família terá nisso a sua parte; uma conversa suave selará a união das almas; trocar-se-ão as impressões recebidas e os projetos formados; confirmar-se-ão os planos e os fins; consolar-se-á a velhice do dia; reinará a harmonia e ter-se-á celebrado uma digna vigília da festa que cada novo dia representa para o cristão.

O homem, que dorme, toma, muitas vezes, sem dar por isso, a posição que teve outrora no ventre materno. É um símbolo. O repouso volta à origem: origem da vida, origem da inspiração; retempera-se; o dobrar-se, de noite, tem uma significação. Ora, retemperar-se não é agitar-se; é como que refugiar-se, é procurar para a seiva humana, pela concentração pacífica, aumento de vigor, é restaurar em nós a vida orgânica e a vida sagrada, por um feliz repouso, pela oração, pelo silêncio e pelo sono”. (p. 77-78)

IV - Os instantes de plenitude

“Seja como for, depois de feita a escolha, convirá poupar os instantes escolhidos e poupar-se de si próprio, a fim de os explorar integralmente. Será preciso tudo prever para que nada venha obstruir, dissipar, reduzir ou enfraquecer tão preciosa duração. Se quereis que cia seja completa, começai por excluir as preparações longínquas; tomais todas as disposições úteis; sabei o que quereis fazer e a maneira de o fazer; juntai os materiais, as notas, os livros; não vos incomodeis com ninharias.

Além disso, para que esse tempo se conserve intacto e verdadeiramente livre, levanta-vos da cama com prontidão, a hora exata; tomai refeições frugais; fugi das conversas vãs, das visitas inúteis; limitai a correspondência ao estrito necessário; lede os jornais com moderação. Estas restrições, que apontamos como amparo da vida de estudo, aplicam-se sobretudo ao que constitui o centro dela”. (p. 79-80)

“Fazei alguma coisa ou não façais nada. Executai ardentemente o que decidis fazer, com afinco, de sorte que a atividade seja uma série de atos continuados com tenacidade. O trabalho a meias, que é repouso a meias, não favorece o estudo nem o descanso”. (p. 80)

“Chamai então a inspiração. A deusa nem sempre acudirá, mas sempre se deixa comover pelos esforços sinceros. Não quero com isto dizer que vos estafeis, mas sim que vos orienteis, que viseis ao alvo e afasteis do campo visual, como o atirador, tudo o que não for o ponto de mira”. (p. 80)

“Abrir-se assim à verdade, abstrair de tudo o mais e, se me é lícito dizer, tomar um bilhete para o outro mundo, eis o verdadeiro trabalho, do qual afirmamos que bastem duas horas por dia para levar a cabo uma obra. É pouco, mas, cumpridas todas as condições, esse pouco basta e vale muito mais do que as pretensas quinze horas de que tantos paroleiros se jactam. Certos algozes do trabalho alcançaram de fato estas cifras astronômicas; são casos para qualificar de feliz monstruosidade, quando ao de ruidosa loucura. Os trabalhadores normais apreciam mais duas a seis horas capazes de se aproveitarem de modo durável e fecundo. A questão principal não é essa, mas sim o emprego do tempo, o espírito que preside a esse emprego.

Quem conhece o valor do tempo, sempre o encontra em abundância; não podendo alongá-lo, eleva-o, e primeiramente não encurta. O tempo é espesso como o ouro; mais vale a medalha forte, bem cunhada e de liga pura; do que a folha dilatada pela arte do batedor. Muitos contentam-se com as aparências, com veleidades trapalhonas, zumbem sempre e nunca realizam trabalho algum”. (p. 81)

“Voltaremos a falar das condições desta claridade protegida; por ora; limito-me a indicar uma só: defender tenazmente a solidão. Se tendes obrigações, dai-lhes, em tempo normal, o que lhes compete; se tender amigos, combinai encontros oportunos; se a gente importuna vos solicita, fechai-lhes a porta com bons modos”. (p. 81-82)

“Falei da solidão completa, como de ambiente favorável ao trabalho. Cumpre acrescentar que a expressão não se deve tomar materialmente. Há presenças que duplicam a quietação, em vez de a dissiparem. Tende junto de vós um trabalhador ativo, um amigo absorvido nalgum pensamento ou ocupação harmoniosa, uma alma de escol que compreenda a vossa obra que se una com ela, e apoie o vosso esforço com silenciosa ternura e ardor por vós comunicado: isso não é distração, é ajuda”. (p. 82)

“O tempo dum pensador, empregado conscienciosamente, é, em todo o rigor, caridade universal. Não o apreciamos doutra maneira. O homem da verdade pertence ao gênero humano como a própria verdade: não há que temer egoísmos, quando nos isolamos em benefício desta universal benfeitoria dos homens”. (p. 83)

Capítulo V - O campo do trabalho

I - A ciência comparada

“Nenhuma ciência se basta a si mesma; nenhuma disciplina, encarada em si só, é luz suficiente para iluminar os seus caminhos. Isolada, mirra-se, emagrece, estiola-se e, na primeira ocasião, extravia-se”. (p. 84)

“Por conseguinte, se quiserdes alcançar um espírito aberto, claro, verdadeiramente forte, começais por desconfiar da especialidade. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir; os trabalhos de escavação serão tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. O saber não é torre nem poço, é habitação humana. Um especialista, se não for homem, é manga de alpaca, a sua esplêndida ignorância torna-o transviado entre os humanos; é um inadaptado, um anormal, um louco. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo. Acima de tudo será homem, pois pertence, por vocação, ao gênero humano; pisará o solo com pé firme, com a sua base de sustentação, e não saltitando sobre as pontas dos pés”. (p. 85)