“A amizade é maiêutica que extrai de nós os mais ricos e íntimos recursos; desdobra as asas dos sonhos e dos obscuros pensamentos; inspeciona os juízos, experimenta as ideais novas, entretém o ardor e inflama o entusiasmo”. (p. 50)
“É preciso que, na medida em que nos for dado escolher, disponhamos as coisas de maneira a convizinhar o mais possível com pessoas superiores. A esposa dum intelectual deve também zelar por isto. Não abra a um qualquer as postar de casa; que o seu tato seja como crivo; à sociedade da alta roda prefira a das almas nobres; aos pretensos homens de gênio prefira gente de peso, instruída e de juízo sólido, visto que no mundo tanto mais e passa por um homem de gênio quanto mais se matou a inteligência. Sobretudo não vá ela, por leviandade ou vaidade, por qualquer interesse reles, introduzir o marido na companhia de insensatos”. (p. 52-53)
“A sociedade é livro para ler, embora livro banal. A solidão é obra-prima; mas recordai-vos do que dizia Leibniz, a saber, que sempre retirava utilidade até da leitura dos piores livros. Nunca pensais só, como nunca pensais só com a inteligência. Esta associa-se às demais faculdades, a alma associa-se ao corpo, a pessoa associa-se às suas relações; o ser pensante é tudo isto: componde-o o melhor que puderdes, mas de sorte que as próprias taras, e as enfermidades, se convertam em valores, por meio de qualquer indústria feliz da grandeza de alma”. (p. 53)
“Sendo moderados nas conversas, permanecereis recolhidos e lograreis a sabedoria indispensável para o intercâmbio das ideias com o próximo. Falar para dizer o que se deve dizer, para exprimir um sentimento oportuno ou uma ideia fútil depois disso calar-se, eis o segredo de o intelectual se guardar ao mesmo tempo em que se comunica. Não existe outro meio de dar autoridade à palavra. A palavra pesa, quando por debaixo dela se pressente o silêncio, quando esconde e deixa adivinhar, por trás dos sons, um tesouro que vai dispensando com medida sem pressa nem agitação. O silêncio é o conteúdo secreto das palavras importantes. O valor duma alma mede-se pela riqueza do que ela não diz“. (p. 53)
“Tudo isso é recomendável. Porque, se, no mundo, cada coisa tem a sua medida, a vida interior não escapa a esta lei. Requere ela que ação se limite e ceda o passo à solidão, porque a ação exterior agita a alma, enquanto o silêncio a acalma; mas o silêncio exagerado causa também agitação: o refluxo do homem todo para a cabeça desorienta e dá tonturas; daí a necessidade de diversão para a vida cerebral a necessidade do calmante da ação”. (p. 55)
“Se não me engano, tudo isto resulta que a solidão útil, o silêncio, o retiro do pensador são realidades mitigadas, animadas por um espírito de exigência estrita. Se, de facto, o intelectual é consagrado e se não há possibilidade de servir a dois senhores, a ação e as frequentações devem ser condicionadas e doseadas pelo retiro, pelo silêncio e pela solidão interior.
Por conseguinte, o que importa é o espírito de silêncio. Costuma-se dizer que a solidão é mão das obras. Mas exato seria dizer: o estado de solidão. Tão verdade isto é que, em rigor, podemos conceber uma vida intelectual fundada num trabalho de duas horas por dia, o que não quer dizer que, salvas essas duas horas, possamos em seguida proceder como se elas não existissem. Essas duas horas são dedicadas à concentração; independentemente delas, requer-se a consagração de toda a vida”. (p. 58)
“Ficar em si e entregar-se à garrulice interior, às sacudidelas dos desejos, à exaltação do orgulho, ao fluxo de pensamentos que introduzem em nós um mundo externo absorvente e cheio de discórdia, será isto a solidão? Há uma falsa solidão, como há uma falsa paz. Pelo contrário, sair e agir por dever, por prudência ou pelo cuidado de tomar descanso, […] pode ser uma solidão superior, que alimenta e tonifica a alma em vez de a apoucar”. (p. 59)