I - A ciência comparada

“Nenhuma ciência se basta a si mesma; nenhuma disciplina, encarada em si só, é luz suficiente para iluminar os seus caminhos. Isolada, mirra-se, emagrece, estiola-se e, na primeira ocasião, extravia-se”. (p. 84)

“Por conseguinte, se quiserdes alcançar um espírito aberto, claro, verdadeiramente forte, começais por desconfiar da especialidade. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir; os trabalhos de escavação serão tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. O saber não é torre nem poço, é habitação humana. Um especialista, se não for homem, é manga de alpaca, a sua esplêndida ignorância torna-o transviado entre os humanos; é um inadaptado, um anormal, um louco. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo. Acima de tudo será homem, pois pertence, por vocação, ao gênero humano; pisará o solo com pé firme, com a sua base de sustentação, e não saltitando sobre as pontas dos pés”. (p. 85)

“Em cada coisa, ide direto ao essencial, não vos deixando enredar nas minúcias: não é por estas que se empunham as ciências; é muitas vezes pelo pormenor, mas pelo pormenor característico, isto é, pelo fundo”. (p. 88)

“Assim como nenhuma ciência particular se basta a si própria, assim também o conjunto das ciências, se não sustenta sem a rainha das ciências – a filosofia -, nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria derivada da ciência divida – a teologia”. (p. 88)

III - A especialidade

“A ciência consiste mais em profundidade do que em superfície. A ciência é conhecimento pelas causas, e as causas mergulham como raízes. É mister sacrificar sempre a extensão à penetração, pelo simples motivo de que a extensão por si, nada é a penetração, introduzindo-nos no centro dos fatos, fornece a substância do que se buscava numa investigação sem termo”. (p. 96)

“Em primeiro lugar, cada um tem as suas capacidades, os seus recursos, as suas dificuldades interiores ou exteriores, e devemos perguntar se é prudente cultivar igualmente aquilo para que somos feitos e aquilo que mais ou menos está fora do nosso alcance. Vencer uma dificuldade é bom; é preciso; mas a vida intelectual não deve ser acrobacia permanente. É muito importante trabalhar com alegria, portanto com facilidade relativa, portanto com o sentido das aptidões. É preciso, avançando primeiramente em diversas vias, descobrir-se a si próprio, e, uma vez ciente de sua vocação especial fixar-se nela.

Em seguida, há um perigo que espreita os espíritos que se espalham demasiado: o contentar-se com pouco. Satisfeitos com as suas explorações através de tudo, cessam o esforço; os progressos, primeiro rápidos, são como os de fogos-fátuos. Nenhuma energia se desdobra muito tempo se não for estimulada pela dificuldade crescente e sustida pelo interesse, também crescente, duma investigação laboriosa. Examinando o conjunto, julgado nas suas relações e unidade, à luz dos princípio fundamentais, é urgente, se se não quer patinhar do mesmo sítio, lançar-se a uma tarefa precisa, limitada, proporcionada às próprias forças e aplicar-se a ela de alma e coração”. (p. 97)

IV - Os sacrifícios necessários

“Não julgueis, portanto, que tudo vos é possível. Medi as forças, medi a tarefa: após alguns tenteios inevitáveis, sabei limitar-vos; guardai por meio de leituras e, se preciso for, de pequenos trabalhos, o benefício das culturas primeiras, o contato das amplidões, mas concentrai-vos para aproveitar o principal do tempo e das forças. O meio-sábio não é só o que sabe a metade das coisas, é o que as sabe só a meias. Sabei o que decidistes saber: não percais de vista o resto. O que não for da vossa vocação, deixai-o a Deus, que disso terá cuidado. Não deserteis de vós, por vos terdes querido substituir a todos”. (p. 99)