I - Ler pouco

“Nunca pensamos isoladamente: pensamento em sociedade, em colaboração imensa; trabalhamos com os trabalhadores do passado e do presente. Graças à leitura, pode comparar-se o mundo intelectual a uma sala de redação ou repartição de negócios, onde cada qual encontra no vizinho a sugestão, o auxílio, a crítica, a informação, o ânimo de que carece. Portanto, saber ler e utilizar as leituras, é necessidade primordial que o homem de estudo não deve esquecer”. (p. 116)

“Eu não aconselho a restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante intepretação. Queremos formar um espírito largo, praticar a ciência comparada, manter o horizonte aberto diante de nós, o que não se consegue sem muita leitura. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. Aqui, é preciso muito absolutamente, porque a obra é vasta; mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante especialidade sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas”. (p. 116-117)

“Leia com inteligência, não com paixão”. (p. 117)

“A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e concentração e, por conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita e contempla na atitude de simples espectador. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por comentários, por capítulos, por tomos”. (p. 117)

“Em resumo: podendo recolher-vos, ponde de parte a leitura; lede unicamente, exceto nos momentos de distração, o que respeita ao fim em vista, e lede pouco, para não devorar o silêncio”. (p. 119)

II - Escolher

“Ler só obras de primeira mão, onde brilham as ideias mestras. Ora estas são pouco numerosas. Os livros repetem-se, diluem-se, ou então contradizem-se, o que é outra maneira de se repetirem”. (p. 119)

“Em seguida, deveis selecionar nos livros. Nem tudo é igual. Nem por isso haveis de assumir atitude de juiz; sede antes, para com o autor, um irmão, na verdade, amigo, e amigo inferior, visto que, pelo menos debaixo de certos aspectos, o tomais por guia. Sendo o livro um irmão mais velho, é mister honrá-lo, abri-lo sem orgulho, escutá-lo sem prevenção, suportar-lhe os defeitos, buscar o grão da palha. Mas sois homem livre; permaneceis responsável; reservai-vos o bastante para guardar a alma e, se necessário for, para a defender”. (p. 120)

“O homem inteligente encontra em toda a parte inteligência, o louco projeta sobre todas as paredes a sombra da sua fronte estreita e inerte. Escolhei o melhor que puderdes; mas procurai que tudo seja bom, largo, aberto ao bem, prudente e progressivo”. (p. 121)

III - Quatro espécies de leitura

“Concretizando um pouco mais, distingo quatro espécies de leitura. Lemos para nos formarmos e ser alguém; lemos com a mira nalgum fim particular; lemos para nos animarmos a trabalhar e praticar o bem; lemos por motivo de distração. Há leituras de fundo, leituras de ocasião, leituras de estímulo ou de edificação, leituras de repouso.

Estes gêneros de leitura devem utilizar as nossas observações; cada uma apresenta também exigências particulares. As leituras de fundo requerem docilidade, as leituras de ocasião requerem mestria, as leituras de estímulo requerem ardor, as leituras de repouso requerem liberdade”. (p. 121)

“Quem lê, com a mira num trabalho, tem o espírito dominado pelo que pretende realizar; não mergulha na onde, bebe nela; fica na margem, guarda a liberdade de movimentos, reforça as próprias ideias com o que de fora lhe advém, em vez de as afogar nas ideias de outrem, e sai da leitura enriquecido e não despojado, como sucederia, se a fascinação da leitura prejudicasse o intuito de utilização que a justificava”. (p. 123)

“Ter assim, nos momentos de depressão intelectual ou espiritual, autores favoritos, páginas reconfortantes, tê-las à mão, prestes para inocularem no espírito a boa seiva, é recurso incomparável. […] Observe-se cada qual, repare nos seus resultados, reúna em volta de si os remédios para as doenças da alma, e não hesite em repetir, até se fartar, o mesmo cordial ou o mesmo antídoto”. (p. 123-124)

“Lede o que agrada, o que não entusiasma demasiado, o que não prejudica e, já que sois consagrado, mesmo quando vos distraís, tende a inteligência de ler, em igualdade de proveito e de repouso, o que for útil de outra maneira e ajudar a completar-vos, a ornar o espírito, a ser homem”. (p. 124)

IV - O trato com o gênio

“Se sois literato, não saboreis o benefício de ter atrás de vós Homero, Sófocles, Vergílio, Dante, Shakespeare, Corneille, Racine, La Fontaine, Pascal? Se sois filósofo, podereis acaso prescindir de Sócrates, Platão, Aristóteles, S. Tomás de Aquino, Descartes, Leibniz, Kant, Maine de Biran, Bergson? Se sois científico, sabeis porventura o que deveis a Arquimedes, a Euclides, também a Aristóteles, a Galileu, a Kepler, a Lavoisier, a Darwin, a Cláudio Bernard, a Pasteur? Se sois religiosos, pensastes já qual seria a pobreza das almas, se não tivessem S. Paulo, S. Agostinho, S. Bernardo, S. Boaventura, o autor de Imitação de Cristo, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa, Bossuet, S. Francisco de Sales, Newman?” (p. 125-126)

“O contrato com os gênios traz, como benefício imediato, a elevação; só pelo fato de sua superioridade, gratificam-nos, mesmo antes de nos ensinarem qualquer coisa. Dão-nos o tom; habituam-nos ao ar das montanhas. Movíamo-nos em região baixa; dum golpe, erguem-nos à sua atmosfera. Neste mundo de pensamento sublime, parece que se desvenda o rosto da verdade; fulgura a beleza; o fato de seguir e de compreender estes videntes leva-nos a pensar que somos da mesma raça que reside em nós a Alma universal, a Alma das almas, o Espírito, que só espera que nos adaptemos a Ele para desabrochar em discursos divinais, pois que, no manancial de toda a inspiração, sempre profética, há Deus, o primeiro autor de tudo o que se escreve (V. Hugo)”. (p. 126)

“É sempre estreita a sociedade das inteligências: a leitura alarga-a: volvemos um olhar de súplica para a página genial e somos atendidos; socorrem-nos; rasgam-nos caminhos; tranquilizam-nos; iniciam-nos; o trabalho de Deus nos espíritos de escol é levado em conta para bem nosso e deles: somos enriquecidos com as riquezas deles; o gigante conduz o anão e o antepassado oferece uma herança. Por que não aproveitar este incremento? De nós só depende: basta fidelidade e atenção”. (p. 127)

“O que é verdade individualmente, é verdade coletivamente. Devemos aprender a bem pensar sobretudo no trato com os sábios; mas a própria loucura comporta um ensinamento; quem escapa ao seu contágio, extrai dela uma força. ‘Quem tropeça sem cair, dá um passo avante'”. (p. 130)

V - Conciliar em vez de opor

“Para tirar proveito das leituras é indispensável começar por conciliar os seus autores e não os opor. O espírito crítico tem suas aplicações; teremos que discutir opiniões e classificar homens; utilizemos então o método por contraste, sem o forçar. O caso é outro, quando se trata de formação, de utilização pessoal ou de exposição doutrinal. O que então interessa, não são os pensamentos, mas as verdades, não são os homens, mas a obra por eles realizada e o que dela fica. Por conseguinte, embalde nos eternizamos em vincar diferenças; a investigação profunda informa-se dos pontos de contato.” (p. 130)

“É uma espécie de profanação, sobretudo a respeito dos homens superiores, tomar atitudes de disputa. Lamentemos os seus erros, não os confundamos; lancemos pontes, não cavemos fossos entre as suas doutrinas. A descoberta das ligações, que prendem secretamente ideais e sistemas, ainda os mais diversos, irradia intensa luz. É trabalho muito mais fecundo aplicar-se à reconstituição da verdade integral através das deformações do que passar o tempo a criticá-las.” (p. 131-132)

VI - Assimilar e viver

“Ainda uma derradeira e capital indicação sobre as leituras. Embora o leitor deva mostrar certa passividade que não tolha a ação da verdade em seu espírito, precisa, no entanto, de reagir sobre o que lê para o fazer seu. Lemos para pensar, enriquecemo-nos para utilizar, alimentamo-nos para viver.” (p. 132)

“A fonte do saber não está nos livros, está na realidade e no pensamento. Os livros são postes indicadores; o caminho é mais antigo, e ninguém trilha, por nós, o caminho da verdade. O que acima de tudo nos interessa é o que é, e não o que o escritor diz; e o que o nosso espírito pretende não é repetir, mas compreender, ou seja, tomar consigo, absorver vitalmente e, enfim, pensar por si. Ouvida a palavra, é mister, depois do autor, e talvez graças a ele mas independentemente dele, obrigar a alma a repeti-la de si para consigo. É forçoso recriar para o nosso uso toda a ciência.” (p. 135)

“Esta é, julgo eu, a última palavra a dizer sobre os livros. O livro é sinal, estimulante, ajuda, iniciador, não apenas substituto, nem prisão. O pensamento precisa de estar em nós. Lendo, não devemos ir para os mestres, devemos partir deles. Uma obra é berço, e não túmulo. Fisicamente nascemos jovens e morremos velhos; intelectualmente, em virtude da herança secular, ‘nascemos velhos; tratemos de morrer jovens’.” (p. 137)