“Todos os mestres são unânimes em afirmar que sobrecarregar a memória prejudica o pensamento e a atenção. O espírito afoga-se na massa dos materiais; o que fica sem emprego atravanca-o e paralisa-o; o peso morto oprime o vivo, o alimento excessivo envenena. Quantos pretensos eruditos de espírito falso e inerte, quantas ‘bibliotecas vivas’, ‘quantos dicionários ambulantes’, que são disso a prova! Não vivemos da memória, servimo-nos da memória para viver. Arquivai o que possa ajudar a conceber ou a executar, o que possa assimilar-se à vossa alma, responder ao vosso fim, vivificar a vossa inspiração e suster a vossa obra. O resto, esqueci-o. Embora, ocasionalmente, sejam úteis muitas coisas, que o não parecem e que de fato o não são, ordinariamente, não há motivo para as reter todas ao acaso. Se for preciso, buscá-las-eis; o papel vo-las apresentar sem custo. Qual o viajante que, sob pretexto de ter de tomar um comboio, decora a Guia dos Caminhos de Ferro?” (p. 138-139)
“Uma regra capital consiste em introduzir a memória na corrente da vida intelectual em levá-la a tomar parte na vocação, de sorte que se especialize como o espírito, na mesma medida e com a mesma concentração que ele.” (p. 139)
“Cada qual deve empenhar-se em manter bem vívido na memória e disponível para a primeira requisição o que constitui a base do trabalho, o que, por este motivo, os espíritos eminentes da sua profissão conhecem. Neste particular; quanto maior for a diligência e menor a demora, tanto melhor. O resto ir-se-á adquirindo consoante o exigir a tarefa empreendida, sem pressa nem inquietação.” (p. 140)
“Depois de regulada a quantidade do conteúdo, convém pensar na ordem. A memória não deve ser caos. A ciência é conhecimento pelas causas, ao passo que a experiência só vale pelas suas conexões, agrupamentos e hierarquias de valor. Armazenar em montão é inutilizar tudo e condenar-se a rememorar ao acaso. A memória intelectual deve revestir-se dos caracteres da intelectualidade; ora esta não se satisfaz com noções discordantes, sem afinidades precisas. Buscai sempre o que prende isto àquilo, o que condiciona isto e aquilo, de sorte que esta coordenação, e não um acervo de farrapos, se estabeleça na vossa memória. Cabeça bem feita é árvore genealógica, onde os ramos se prendem ao tronco e pelo tronco comunicam entre si: aí se revelam claramente os parentescos em todos os graus, exprimindo uma descendência em todas as suas relações e no seu conjunto.” (p. 141)
“Conservai, antes de tudo, – como dissemos que as buscásseis antes de tudo – as ideias mestras; estejam elas presentes ao primeiro apelo, prestes a iluminar tudo o que se vos oferece, a manter no seu posto, a despeito de novas contribuições, as ideias antigas, a se desenvolverem por ocasião de cada progresso, como o cérebro se aproveita do que o estômago recebe, e o coração do exercício efetuado pelos membros.” (p. 141-142)
“A faculdade criadora depende, em grande parte, da sabedoria e da sobriedade da memória. O aferrar-se ao essencial mantém abertas para fora todas as perspectivas, e a lógica do adquirido tende a prolongar-se em novas contribuições. Os pensamentos servem de isca aos pensamentos; todas as águas vão dar ao mar; só se empresta aos ricos; dar-se-á àquele que tem e ele abundará, declara o Evangelho. Cada verdade é aurora de outra verdade; toda a possibilidade procura realizar-se, e quando a ordem interior se oferece à experiência, sucede o mesmo que a uma raiz que mergulha na terra: a substância trabalha, os filamentos desdobram-se e arrecadam os sucos; a vida cresce, porque a adaptação do ser vivo ao ambiente é a condição única de fecundidade, como, ao princípio, o é da sua substância.” (p. 143)
“São quatro as regras propostas por S. Tomás: 1ª ordenar o que se quer reter; 2ª aplicar a isso o espírito; 3ª meditar nisso com frequência; 4ª no ato de reminiscência, tomar pela extremidade a cadeia das dependências, que o resto seguir-lhe-á. Acrescenta ainda, como acessório, o que diz Cícero, a saber, a vantagem de ligar a memória das coisas intelectuais à das coisas sensíveis, porque estas últimas constituem objeto próprio do intelecto e por si pertencem à memória, enquanto as outras indiretamente.” (p. 143-144)
“Se queres reter, atendei às ligações e às razões das coisas; analisai, procurei os porquês, observai a genealogia dos acontecimentos, as sucessões e dependências, imitai a ordem matemática, onde a necessidade, partindo do axioma, chega às mais longínquas conclusões. Compreender a fundo, aprender em seguida a introduzir no espírito, não anéis a esmo, mas uma corrente, é assegurar a coesão do todo. A união faz a força.
A aplicação do espírito, que a seguir se recomenda, tem por fim reforçar o misterioso buril que traça em nós a figura das palavras e das coisas. Quanto mais ardente for a atenção, mais o buril cava e melhor os sulcos resistirão ao fluxo permanente que tende a substituir as ideias como a morte substitui os seres. Quando ledes ou escutais com o intuito de aprender, concentrai-vos e estai presentes a vós próprios; repeti no íntimo, como que em voz alta, o que se voz diz; martelai-o em sílabas, de sorte que possais repetir o que lestes ou ouvistes, pela ordem com que o fixastes. Tratando-se dum livro, não o fecheis sem que o possais resumir e apreciar. Digo isto, porque o objeto, que provocou intervenção ativa da nossa parte, foge mais dificilmente; fica, por assim dizer, agarrado à pessoa.
Depois disso, meditai, quanto puderdes e quanto ele o merecer, o objeto a preservar do esquecimento. A vida apaga os rastos da vida; por isso nos aconselham a burilar fortemente. Verificando que os rastos se desfazem apesar de tudo, o mesmo motivo nos convida a repassar o buril pelos cortes, a não poupar a água-forte, isto é, a revivificar constantemente os pensamentos úteis e a reanimar os fatos que queremos conservar à mão.” (p. 144-145)
“Em resumo, o que importa à memória, não é tanto o número das aquisições, quanto, primeiramente a sua qualidade, em seguida a sua ordem e finalmente a habilidade do seu emprego. Os materiais não faltam ao pensamento, é o pensamento que falta aos materiais. Aprender não é nada, sem a assimilação da inteligência, sem a penetração, sem o encadeamento, sem a progressiva unidade duma alma rica e regulada.” (p. 146)