“Ai de nós, se tivéssemos que nos fiar na memória para guardar intacto e prestes a servir o que encontramos ou descobrimos no decurso da vida de estudo. A memória é infiel; perde, enterra, quase que não obedece ao apelo. Opomo-nos a que a sobrecarreguem e a que se atravanque o espírito; preferimos a liberdade da alma a uma abastança indigesta. A solução é o caderno de notas ou o ficheiro.” (p. 147)
“Podemos distinguir duas espécies de notas, correspondentes à preparação remota ou preparação próxima do trabalho. Ledes ou meditais para formação e alimento do espírito: apresentam-se ideias que se vos afiguram dignas de registro, fatos, indicações diversas, capazes de tornarem a servir: anotai-os. Por outro lado, tendo de estudar um assunto determinado, de realizar uma produção, procurais documentar-vos, ledes o que se publicou sobre a matéria, recorreis a todas as fontes de informação de que podeis dispor e refletis por vós próprios, sempre de caneta na mão.” (p. 148)
“Evitai o capricho em tudo. Como a leitura é nutrição, e a lembrança uma posse que enriquecendo a pessoa faz corpo com ela, as notas são reserva alimentar e pessoal. Leituras, lembrança, notas, tudo isto deve completar-nos, portanto assemelhar-se a nós, ser da nossa espécie, da nossa missão, da nossa vocação, corresponder aos nossos fins e à forma dos gestos pelos quais podemos e queremos utilizá-los.” (p. 149)
“Tendes um assunto determinado: pensai nele fortemente; traçai, no espírito, um plano provisório de orientação das leituras e reflexões, e segundo ele tomareis esta e aquela nota que irão encher os ficheiros. Declarava Cláudio Bernard que uma observação científica é a resposta a uma questão que o espírito se propõe, e que na realidade só se encontra o que se procura. Do mesmo modo, a leitura inteligente é uma resposta possível à questão posta em nós pelo assunto a tratar; portanto é mister ler com um sentimento de expectativa, como se acompanha com o olhar, à saída duma estação, a vaga dos viajantes por onde se escoa um amigo.” (p. 150)